sad window


A casa jazia escura, não fosse por uma pequena vela quase a metade queimando no canto do quarto. As sombras dos móveis puídos se alongavam pela parede, e a poeira se acumulava por alguns deles assim como nos vidros das janelas. Do lado de fora o tempo era cinzento, não um cinza de chuva mais um resquício das batalhas que aconteciam no centro da cidade. Vez ou outra o barulho de uma explosão era ouvido. O coração da jovem mulher se apertava a cada um deles, e o pequeno menininho se encolhia por entre uma manta surrada.
As tropas estavam em combate com os invasores não muito longe dali, algumas famílias haviam fugido para o campo, mas não eles, não tinham para onde ir, tudo que lhe restavam era a velha casa herdada pouco antes de aquilo tudo começar. Um lar feliz e cheio de amor até então, mas com a guerra eminente o marido foi mandado para defender o reino, a esposa e o menininho tiveram de se aguentar na medida do possível.
Um barulho na porta fez com que os olhinhos negros se arregalassem ainda mais, alguém trouxera a noticia um dos garotos da vizinhança que havia sido capturado há alguns dias havia aparecido. No entanto, as lágrimas de sua mãe denunciavam que não havia sido da forma com que esperavam. A velha manta foi aperta ainda mais contra o pequeno rosto, ele podia ter seus cinco anos de idade, mas conhecia o medo muito bem. As lagrimas escorreram pelos seus olhos e ele se abraçou a saia encardida de sua mãe.
‘Não deixem me levar também… ‘ – ele pediu entre um soluço e outro – ‘por favor, mamãe, não deixe… E nem você… Não me deixe sozinho… ‘
A mãe sentiu seus olhos arderem, fez um aceno para a outra mulher que se retirou. O garotinho foi pego no colo e levado novamente para o quarto e depositado na cama. Deitou-se ao seu lado e o abraçou protetoramente.
‘Você não vai a lugar algum, e, nem eu… ‘ – ele disse tentando sorrir, embora desconfiasse que não estivesse conseguindo. – ‘ Isso tudo vai passar logo… O papai vai voltar pra casa e poderemos procurar um lugar novo para viver, talvez num rancho com cavalos… você andará em um pequeno pônei todas as tardes e podemos fazer piquenique quando o trabalho no campo estiver feito…’
As lágrimas escorriam conforme ela dizia aquelas coisas, não só pelo medo que o filho sentia como por sua débil esperança de que tudo se realizasse. Outro estrondo soou, dessa vez um pouco mais perto que antes. O garotinho sentou-se na cama tentando olhar pela janela do lado do leito, ela o impediu. Algo no horizonte parecia estar pegando fogo a uns dois quilômetros de distância.
‘Não olhe… Tente dormir’ – pediu ela e entonou uma velha canção de ninar que seu pai lhe cantava nas noites de tempestade. O menininho se aconchegou a ela a mão pousada na bochecha da mãe, que tinha os olhos fixos no sol que se punha. Fazia uma prece para que tudo ficasse bem, e que eles ficassem sãos e salvos enquanto passavam por aquilo.
A mãozinha escorregou de seu rosto fazendo com que ela voltasse a observar o garotinho, que a agora dormia. Ao menos durante esse tempo ele estava livre daquela guerra, em seus sonhos seria apenas uma manhã luminosa e feliz.
‘Tudo vai ficar bem, Seu pai, você e eu vamos estar são e salvos’. – sussurrou ela, mesmo sabendo que ele não ouvia. Deu-lhe um beijo na testa e recostou-se tentando se prender as esperanças de seus sonhos.


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